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O Fracasso existencial - Coachs, CEOs e Influenciadores

Como a performance exagerada de papéis sociais modernos leva a um vazio existencial.

Por Ricardo A. B. Graça

Palavras-chave: subjetividade, fracasso existencial, má-fé, alienação, hiper-ritualização, sociedade do cansaço, economia da atenção.

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O Fracasso existencial
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TL;DR: As ideias essenciais

  • Má-fé Institucionalizada: Coaches, CEOs e influenciadores praticam uma "má-fé" sistêmica e lucrativa. Eles abrem mão de sua liberdade existencial para se engessarem em papéis sociais que o mercado financia.
  • Autocomoditização (O "Corpoceno"): A própria identidade vira produto. Subjetividade, intimidade e emoções são vendidas como commodities, gerando uma alienação profunda em que o indivíduo é consumido pelo seu próprio modelo de negócios.
  • Teatro sem bastidores: A performance torna-se ininterrupta. As redes sociais extinguiram o espaço privado (backstage), exigindo uma hiper-ritualização constante que culmina na exaustão pelo desempenho.
  • A Má-Fé como produto: A caricatura social deixou de ser apenas o esvaziamento individual para virar o motor da Economia da Atenção. Algoritmos potencializam essa "máscara" para capturar nossa vitalidade interior, transformando a manipulação e o engajamento no modelo de negócios central.
  • Fracasso existencial: O verdadeiro fracasso não é financeiro, mas interno. O indivíduo torna-se um estranho para si mesmo, totalmente esvaziado e devorado pela persona que ele escolheu sustentar.

Jean-Paul Sartre, em seu existencialismo radical, descreveu uma cena icônica: um garçom em um café parisiense. Seus movimentos são rápidos demais, precisos demais, uma caricatura perfeita do que se espera de um garçom.

Ele não está apenas trabalhando; ele está atuando para fugir da própria liberdade. Para Sartre, a má-fé se dá quando o indivíduo abre mão de sua liberdade para atuar, escondendo-se atrás de uma identidade fixa para ser apenas a caricatura de um papel.

Hoje, a cena do garçom se repete em escala industrial pelo meio digital. O coach, o CEO midiático e o influenciador são os garçons extremos do século XXI. Seu "fracasso consigo mesmo" não é uma falha comercial, mas uma falência existencial: a rendição da autenticidade em troca da persona.

Eles encarnam os conceitos clássicos da filosofia e sociologia, configurando uma patologia social da inautenticidade.

Os Pilares teóricos do colapso identitário

Para entender essa decadência do ser para a caricatura de um papel, é preciso voltar aos clássicos. A análise cruza cinco pilares conceituais que formam a base desse "fracasso consigo mesmo".

1. A Má-Fé de Sartre e a Fuga da Liberdade
Sartre dividia o ser entre o em-si (fixo, como um objeto) e o para-si (livre, em constante devir). A má-fé é a tentativa desesperada do "para-si" de se fingir de "em-si". É adotar um papel : "sou um CEO", "sou um coach vencedor", como uma essência definitiva, negando a possibilidade de mudança e a responsabilidade pela própria existência.

2. A Alienação Marxista no "Corpoceno"
Marx via a alienação do trabalhador em relação ao fruto do seu trabalho. Hoje, no "capitalismo de plataforma", vivemos o "Corpoceno": a própria pessoa torna-se uma corporação. A alienação não é mais só do produto, mas da subjetividade, que é moldada, precificada e vendida como marca pessoal (personal branding).

3. O Teatro Social e a Hiper-ritualização de Goffman
Erving Goffman via a vida social como um palco. Agimos (frontstage) e temos nossos bastidores (backstage). O problema contemporâneo é a hiper-ritualização: a exacerbação de gestos e expressões para criar uma imagem idealizada e legível. Nas redes sociais, o backstage desapareceu, e a performance tornou-se ininterrupta.

4. O Efeito Persona e a Sombra, na visão de Jung
Carl Jung falava da persona, a máscara social necessária. O perigo está no "efeito persona", quando o indivíduo se identifica totalmente com essa máscara. Tudo que não se encaixa nela: medos, fraquezas, dúvidas; é reprimido, formando a "Sombra". Essa energia reprimida pode emergir de formas destrutivas, como cinismo, burnout ou atos de autossabotagem.

5. A Sociedade do Cansaço e a Autoexploração, por Byung-Chul Han
Byung-Chul Han diagnostica a passagem da sociedade disciplinar (controlada pelo "não deve") para a sociedade do desempenho (obcecada pelo "pode"). A regra é produzir e melhorar sempre. Ninguém precisa nos obrigar a trabalhar: Nos tornamos "empreendedores de nós mesmos", e nos cobramos tanto pelo "modelo" de sucesso que acabamos doentes e esgotados.

Tabela 1: Síntese dos eixos teóricos sobre a desintegração do sujeito

Matriz Teórica Pensador-Chave Conceito Central Mecanismo de Degradação
do "Eu"
Consequência Observável
Existencialismo Jean-Paul Sartre Má-Fé (Mauvaise Foi) Fuga da liberdade radical. Fusão do sujeito a um papel social predefinido. Encenação constante; posturas mecânicas; recusa da contingência.
Materialismo Histórico Karl Marx Comoditização de Si e Alienação A lógica da alienação fabril adentra a psique. A subjetividade torna-se mercadoria. Vida pautada por métricas e personal branding; dissolução de laços não transacionais.
Interacionismo Simbólico Erving Goffman Hiper-ritualização e Dramaturgia Social Exagero performático de gestos para criar uma imagem idealizada e legível. Desaparecimento do espaço privado (backstage); asfixia da espontaneidade; ansiedade constante.
Psicologia Analítica Carl G. Jung Efeito Persona e a Sombra Superidentificação do ego com a máscara social, gerando uma cisão interna profunda. Acúmulo de angústias reprimidas; rupturas psicossomáticas; cinismo moral.
Filosofia Cultural Crítica Byung-Chul Han Autoexploração na Sociedade do Cansaço Internalização da coerção sistêmica. O indivíduo torna-se seu próprio capataz. Esgotamento neurológico (Burnout); depressão como sintoma de insuficiência pessoal.

A anatomia do fracasso em três figuras

Como essas teorias se materializam nas figuras que dominam nosso cotidiano social?

O influenciador digital: A vida como Commodity
O influenciador é a encarnação pura da comoditização de si. Sua intimidade, lar e relações viram cenário curado para gerar engajamento. Guiado por algoritmos, ele hiper-ritualiza tudo ao redor, ensaiando cada etapa de rotinas que simulam uma "vida perfeita". O grande dano à sociedade ocorre porque essa performance é embalada com o rótulo de "autenticidade". O público consome essa encenação não como um personagem, mas como a realidade pura, gerando uma frustração coletiva e o adoecimento de quem tenta alcançar um padrão que, na verdade, não existe.

O Coach: O sacerdote da autoexploração
O coach, especialmente no mercado digital, atua como o ideólogo da sociedade do desempenho. Sua performance é de onipotência e sabedoria inabalável, uma negação flagrante da fragilidade humana (uma má-fé profunda). Ao vestir esse arquétipo de vencedor absoluto, ele vende otimismo tóxico como solução de vida. O efeito colateral e cruel dessa narrativa é a culpabilização do indivíduo. Ao ignorar as diferenças de meios e de privilégios, ele reforça a falácia da meritocracia. Com isso, engana a sociedade ao transformar problemas que são sistêmicos e estruturais em um mero "déficit de força de vontade", convencendo as pessoas a se explorarem voluntariamente até o limite.

O CEO: A persona do líder inquebrável
A pressão corporativa exige a construção de um "líder visionário", forçando uma hiper-ritualização corporativa extrema. Dúvidas, vulnerabilidades e o próprio cansaço são completamente silenciados. Para sobreviver ao topo, o CEO cria uma persona artificial e invulnerável, alienando-se da própria empatia e de seus limites biológicos. O impacto social, ao encenar que a exaustão não o atinge, o CEO valida esse arquétipo inumano como a regra do jogo, forçando toda a cadeia de admiradores a tentar reproduzir a mesma artificialização corporativa.

Tabela 2: Matriz comparativa do fracasso identitário nos arquétipos sociais

Arquétipo Social Patologia performativa
(Má-fé / Goffman)
Mecanismo de alienação
(Marx / Corpoceno)
Colapso psicológico resultante
(Jung / Han)
Influenciador Digital "Eu sou a imagem que projeto." Hiper-ritualização para gerar identificação (relatability). Colapso do espaço íntimo. Comoditização absoluta do ser; a intimidade torna-se ferramenta algorítmica de lucro. Ansiedade e vazio atrelados às métricas. Exaustão do polimento constante da persona e perda do eu autêntico.
Coach (Mentor) "Eu sou o mestre inabalável." Encenação exagerada de onipotência existencial. Negação da fragilidade humana. Venda de otimismo tóxico como commodity. Transformação de angústias sistêmicas em "déficit moral individual". Esmagamento interior sob a fachada narcísica. Depressão mascarada pela pressão de viver um delírio utilitarista insustentável.
CEO Corporativo "Eu sou a resiliência estratégica." Superidentificação com a figura mítica do líder. Silenciamento contínuo das hesitações. Fusão do indivíduo orgânico com a estrutura geradora de lucro. Alienação severa da própria empatia. Sombra não integrada materializando-se como psicopatia corporativa e cultura tóxica. Isolamento agudo e exaustão clínica silenciada (Burnout).

A Má-Fé como Produto: caricatura e a economia da atenção

A construção performática da identidade, quando analisada sob os conceitos de má-fé e hiper-ritualização, ultrapassa a esfera individual. Nas dinâmicas midiáticas e de mercado atuais, essa performance é instrumentalizada, transformando-se em um produto que opera com uma dupla camada de desonestidade. A chamada má-fé sistêmica emerge quando a caricatura social é fabricada e disseminada em escala, estabelecendo uma relação essencialmente manipulativa com o público.

Nesse contexto, a "máscara social" deixa de ser um recurso de adaptação para se tornar uma commodity na Economia da Atenção. Algoritmos e plataformas otimizam narrativas e imagens não para refletir a realidade, mas para capturar a atenção do indivíduo, convertendo-a em engajamento, consumo e controle. A caricatura midiática, portanto, não é um acidente, mas um modelo de negócios.

Esse processo viola um pacto fundamental com o espectador. As tecnologias de visão computacional e as narrativas hegemônicas frequentemente promovem um olhar intrusivo e redutor. A complexidade humana é simplificada em dados e estereótipos palatáveis, uma dinâmica que estudos contemporâneos ilustram ao mostrar como modelos algorítmicos distorcem nuances existenciais e morais. A oferta ao público não é um espelho, mas uma simulação estratégica.

A célebre afirmação de Magritte, "Isto não é um cachimbo"[1], aplica-se perfeitamente aqui. A imagem ou perfil curado não é a realidade que representa; é uma construção deliberada. Essa distinção, porém, é obscurecida pelo fluxo constante de conteúdo, substituindo a experiência autêntica por uma representação hiper-ritualizada. Até eventos coletivos traumáticos são imediatamente enquadrados por lentes políticas pré-definidas, oferecendo ao público uma caricatura que serve a narrativas específicas. Trata-se de uma falha ética, uma má-fé que nega ao espectador uma base factual para seu julgamento.

Como resultado, o espectador é posicionado não como um interlocutor, mas como um alvo a ser conquistado. Sua atenção e seus afetos tornam-se recursos a serem extraídos. A "má-fé para com o consumidor" reside nessa redução: a transformação da potencial relação humana em uma transação unilateral, onde autenticidade e complexidade são sacrificadas em prol de um engajamento lucrativo, ou de uma polarização política útil. A crítica, portanto, deve voltar-se para as arquiteturas sistêmicas, algorítmicas, econômicas e midiáticas; que normalizam e monetizam a caricatura como forma primordial de interação social.

A evolução do dano: do indivíduo para a sociedade

Tabela 3: Matriz evolutiva da autoexploração individual e do contágio social

Dinâmica do desempenho O impacto no indivíduo
(O mal para si)
O impacto na sociedade
(O mal coletivo)
1. A Criação do arquétipo O sujeito veste a máscara do "vencedor", sempre produtivo, otimizado e resiliente. A sociedade recebe essa máscara não como um personagem ou interpretação, mas como a realidade absoluta.
2. A ilusão e o engano O indivíduo camufla seu cansaço e suas falhas para não quebrar a própria imagem. A sociedade é enganada por uma falsa positividade, normalizando um padrão de vida artificial e inatingível.
3. O resultado final Colapso interno: burnout, depressão e exaustão neuronal. O contágio: O arquétipo falso é retransmitido e validado. Os outros tentam imitar a mentira, criando um ciclo infinito de adoecimento coletivo e falta de autenticidade.

O paradoxo final: a Liberdade que escraviza

A tragédia moderna é um paradoxo cruel. O discurso neoliberal celebra a liberdade individual e o "empreendedorismo de si". No entanto, essa mesma liberdade é sequestrada.

Não somos livres para ser, mas para nos otimizarmos incessantemente conforme a demanda do mercado e do algoritmo. A liberdade transformou-se no mandamento da autoexploração.

O "fracasso consigo mesmo" é o veredito dessa guerra interna. É a constatação de que, na busca por validação externa e sucesso mercadológico, traímos nossa condição humana, caótica, contingente e imperfeita.

A saída, como sugerem Camus (1979) em O estrangeiro e os próprios conceitos aqui explorados, não está em uma performance ainda melhor. Está na rebelião contra a utilidade cega, na recuperação do tempo contemplativo e na coragem de abraçar a própria ambiguidade, tirando a máscara para respirar.

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Insights rápidos

  • A Má-Fé como Motor Econômico: A "má-fé" sartreana (a negação da liberdade para se esconder em um papel fixo) deixou de ser uma patologia individual para se tornar o núcleo de um modelo de negócios lucrativo na Economia da Atenção, sistematizada por algoritmos e plataformas.
  • Autocomoditização e Alienação Total: No "Corpoceno", a alienação marxista atinge a subjetividade. O indivíduo não é mais alienado apenas do fruto do seu trabalho, mas de si mesmo, ao transformar sua identidade, intimidade e emoções em commodities para sua própria marca pessoal.
  • Colapso do Backstage e Exaustão Performática: A teoria do teatro social de Goffman é levada ao extremo com o desaparecimento dos bastidores (backstage) nas redes sociais. A performance torna-se ininterrupta, gerando uma hiper-ritualização que culmina no cansaço e no esgotamento pela necessidade constante de desempenho.
  • Fracasso Existencial como Verdadeira Falência: O verdadeiro preço do sucesso performático é um fracasso interno. A identificação total com a persona (Jung) leva a um esvaziamento do self autêntico, tornando o indivíduo um estranho para si mesmo, em uma falência existencial.
  • Culpabilização Sistêmica e Autoexploração Voluntária: Figuras como o coach digital operam uma dupla violência: praticam a má-fé ao negar sua própria fragilidade e, ao vender otimismo tóxico e meritocracia, convertem problemas estruturais em falhas individuais, levando as pessoas a se autoexplorarem até o limite (Han).
  • Simulação Estratégica como Produto Dominante: A relação com o público é fundamentada em uma falha ética: a oferta não é um espelho da realidade, mas uma simulação estratégica e hiper-ritualizada. Como na pintura de Magritte, a representação (o perfil curado) é confundida com o real, negando ao espectador bases factuais para o julgamento.
  • O Paradoxo da Liberdade Neoliberal: A liberdade celebrada pelo discurso do empreendedorismo de si revela-se uma armadilha. Ela se transforma em um mandamento para a auto-otimização constante, onde a única escolha permitida é a da autoexploração, escravizando o indivíduo através da própria narrativa de liberdade.

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Bibliografia & Referências

  • SARTRE, Jean-Paul. A náusea. Tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021
  • SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. Rio de Janeiro: Vozes, 2024.
  • GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Tradução de Maria Célia Santos Raposo. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.
  • HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. Rio de Janeiro: Vozes, 2015.
  • JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução de Maria Luiza Appy e Dora Ferreira da Silva. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. (Obras completas de Carl Gustav Jung, v. 9/1). E-book.
  • MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2004.
  • CAMUS, Albert. O estrangeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 1979.

Glossário Rizomático

  • Alienação (Marxista): No contexto contemporâneo ("Corpoceno"), refere-se ao distanciamento do indivíduo não apenas do fruto do seu trabalho, mas da sua própria subjetividade, que é moldada, precificada e vendida como uma mercadoria.

[1] A frase faz referência à célebre obra A traição das imagens (1929), do pintor surrealista belga René Magritte. Na tela, o artista pintou um cachimbo de forma realista acompanhado da frase Ceci n'est pas une pipe ("Isto não é um cachimbo"), demonstrando que a pintura é apenas uma representação, e não o objeto em si. Neste texto, a analogia ilustra como um perfil curado nas redes sociais não é a pessoa real, mas apenas uma projeção artificial.

  • Autocomoditização: Processo no qual a identidade, a intimidade, as emoções e a subjetividade do indivíduo são transformadas em produtos (commodities) para serem comercializadas como parte de uma marca pessoal.
  • Backstage (Bastidores): Conceito de Erving Goffman que designa o espaço privado onde o indivíduo pode relaxar sua performance social, fora da observação do público. Considerado extinto na era das redes sociais.
  • Corpoceno: Neologismo que descreve a era em que a própria pessoa se torna uma corporação. É a fusão de "corpo" e "capitaloceno", onde a lógica corporativa de otimização e rentabilidade é aplicada ao self.
  • Economia da Atenção: Sistema econômico em que a atenção humana é o recurso mais escasso e valioso. Negócios e plataformas competem para capturar, reter e monetizar esse recurso.
  • Efeito Persona: Termo derivado de Carl Jung que descreve a patologia ocorrida quando o indivíduo se identifica completamente com sua persona (máscara social), reprimindo todos os outros aspectos do self na Sombra.
  • Em-si / Para-si (Sartre): Distinção ontológica. O "em-si" é o ser fixo, objetivo, como uma coisa. O "para-si" é a consciência humana, livre, em constante devir e projeto. A má-fé é a tentativa do para-si de se fingir de em-si.
  • Fracasso Consigo Mesmo: Consequência existencial da má-fé sistêmica. Não é um fracasso financeiro ou social, mas uma falência interna na qual o indivíduo se torna um estranho para si mesmo, esvaziado pela persona que escolheu sustentar.
  • Frontstage (Palco): Conceito de Goffman para o espaço social onde o indivíduo realiza sua performance, consciente de estar sendo observado por um público.
  • Hiper-ritualização: Exacerbação e repetição excessiva de gestos, expressões e comportamentos para criar e sustentar uma imagem social idealizada e legível. Nas redes sociais, torna-se uma performance constante e esgotante.
  • Má-fé (Mauvaise foi - Sartre): Atitude de má-fé existencial na qual o indivíduo nega sua liberdade e responsabilidade absolutas, escondendo-se atrás de uma identidade ou papel social fixo, como se este fosse sua essência definitiva.
  • Má-fé Sistêmica: A institucionalização e monetização da má-fé individual. Ocorre quando a caricatura social é produzida em escala por arquétipos (influenciadores, coaches) e potencializada por algoritmos, tornando-se o motor de um modelo de negócios baseado na atenção e no engajamento.
  • Persona (Jung): A "máscara" social adaptativa, necessária para a interação na sociedade. Representa o conjunto de papéis que uma pessoa desempenha publicamente.
  • Sociedade do Desempenho (Byung-Chul Han): Modelo social que sucede a sociedade disciplinar. É regida pelo imperativo do "pode" (positivo) e não mais pelo "não deve" (negativo). Os indivíduos, como "empreendedores de si mesmos", se exploram voluntariamente na busca por otimização e sucesso, levando à exaustão.
  • Sombra (Jung): O aspecto inconsciente da personalidade, composto por características, desejos e emoções que o ego rejeita ou ignora, muitas vezes por serem incompatíveis com a persona idealizada. A repressão excessiva pode levar a projeções destrutivas ou autossabotagem.


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